Seriam os reis de Portugal descendentes do Rei David?

Antigamente, nos tempos da Bíblia, os reis só subiam ao trono depois de serem consagrados com os “santos óleos”, em nome de Deus. Assim, os povos sabiam que eles os governavam por “direito divino”.

Assim aconteceu com Saúl, o primeiro rei de Israel, que foi ungido pelo profeta e juiz Samuel. Assim aconteceu também com o seu sucessor, o Rei David.

A partir da destruição do 2º Templo de Jerusalém, pelo imperador romano Tito, nunca mais houve um rei em Israel. Na Bíblia está escrito que quando for restaurado o Reino de Israel, o seu rei será um descendente da Casa de David, que será ungido (Machiah em hebraico, Messias em português ou Cristos em grego, tudo isso significa “ungido”).

Um momento antes da destruição de Jerusalém, o rabino Yohanan ben-Zacai conseguiu saír da cidade, com o consentimento dos romanos, e foi estabelecer o Sanhedrin (conselho dos anciãos, uma espécie de parlamento) em Yavné. Obviamente, tornou-se conveniente declarar que Yohanan ben-Zacai era descendente do Rei David. Até talvez fosse mesmo. É difícil prova-lo ou contestá-lo. Portanto assumia o poder espiritual do povo por direito hereditário.

A hegemonia davídica continuou nas academias judaicas da Babilónia, cujos chefes, como descendentes do rei ungido, David, assumiam o título de “nassi”, príncipe.

Quando o judeu Jesus foi proclamado Messias (Cristo) pela fé dos seus seguidores, logo foi declarado que José, seu pai humano, era descendente do rei David.

Segue-se que muitas dinastias europeias se apresentaram como descendentes do mesmo rei de Israel, e portanto os seus reis se sentavam no trono, por direito divino, consagrado na Bíblia.

Quando Pepino de Herstal morreu, em dezembro de 714, seu filho ilegítimo, Carlos Martel (Martelo) assumiu o poder de-facto do reino dos Francos. Mas nunca se proclamou rei.

Assumiu, no entanto, uma estratégia vencedora. Abraham Ibn-Daud, ele próprio descendente o rei David, e conceituado historiador, conta na sua obra principal, “Sefer HaKabalah” (Livro da Cabala) que Carlos escreveu ao califa de Bagdad pedindo que lhe enviasse um dos seus judeus, “que trouxesse em si a semente da realeza da casa de David.”

Ibn-Daud atribuiu essa iniciativa a Carlos Magno, mas os historiadores acreditam que foi confusão do autor, que escreveu o seu trabalho cerca de 1161. E que se trata, na realidade, Carlos Martel, iniciador da dinastia carolíngia.

O califa enviou-lhe um sábio e magnata da Babilónia, chamado “Makir”, filho de Natronai, Exilarca de Pumbedita.

Em 721, Carlos Martel, venceu os muçulmanos na Batalha de Tours (também conhecida por Batalha de Poitiers), que foi o princípio do fim da presença árabe na Europa. Então ele entregou as terras conquistadas aos muçulmanos em Narbona a Makir, o qual, também com o título de nassi, ali criou um principado judaico e uma yeshivah (academia rabínica).

Além disso, Carlos Martel casou o sábio judeu com sua filha Alda (também conhecida como Aldana), cujo irmão, Pepino, o breve, assumiu o trono por morte do pai. O casamento de um judeu com uma gentia, e de uma nobre carolíngia com um judeu, é problemático, e parece implicar a conversão de Makir. Mas o objetivo de plantar a semente da realeza da casa de David na família real carolíngia estava conseguido.

Deste casamento nasceu um filho, que se chamou Guilherme (Wiliam), cujo pai entrou nos anais da história com o nome de Teodorico, o que levou o historiador Arthur Zuckerman (A Jewish Princedom in Feudal France) a concluir que Makir foi batisado com o nome de Teodorico, dando início a uma dinastia de reis franco-judeus em Narbona. Isto representa a união da linhagem dos exilarcas de Pumbedita com os carolíngeos, descendentes de Carlos Martel.

Este filho foi conhecido como Guilherme de Gellone, ou da Aquitânia, e posteriormente, como Conde de Toulouse ou Guilherme d’Orange.

Deste Guilherme descendem os monarcas do Reino de Portugal, com exceção dos da dinastia filipina.

O Conde D. Henrique, foi o quarto filho de Henrique de Borgonha, neto de Roberto I, duque de Borgonha, bisneto de Roberto o devoto, rei de França, terceiro neto de Hugo Capeto, rei de França, quarto neto de Hugo o grande, duque de França, quinto neto de Roberto II, duque e marquês de França, depois rei, sexto neto de Roberto I, o forte, duque e marquês de França.

Segundo os usos da época, os nobres franceses, não sendo primogénitos, tinham poucas probabilidades de aceder aos títulos dos seus pais. A única solução, para a maioria dos filhos mais novos das famílias nobres europeias, era colocarem-se ao serviço de reis estrangeiros, para obterem assim outros títulos honoríficos e respetivas rendas.

O rei espanhol oferecia-lhes essa oportunidade. Henrique de Borgonha e seu primo Raimundo, colocaram-se ao serviço de Afonso VI de Castela.

Portanto, se aceitarmos a genealogia baseada na tradição da família, o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, era descendente do rei David de Israel.

Circunstancialmente, também o judeu Yahia ben Yaish, primeiro arrabi-mor de Portugal, e colaborador de D. Afonso Henriques nas suas conquistas aos muçulmanos, era descendente do Rei David.

Assim como era o Mestre de Aviz, depois D. João I, cujo filho ilegítimo, da sua ligação com a judia Inês, filha do Barbadão da Guarda, foi o primeiro Duque de Bragança, D. Afonso.

O atual Duque de Bragança. S. A. D. Duarte Pio, pretendente ao trono de Portugal, é duplamente descendente de judeus. E quando visitou a Terra Santa, em peregrinação, em 2006, não deixou de mencionar aos seus anfitriões israelitas, a sua ascendência davídica.

Será um ADN talvez já muito diluído, mas, apesar de tudo, com direito à participação da vasta lista de privilegiados, judeus e não judeus, que se alegam descendentes da Casa de David.

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