PURIM EM ALCÁCER-QUIBIR

Purim, em 14 do mês de Adar, no calendário judaico, é a única festividade  que comemora um evento ocorrido na Diáspora, fora da Terra de Israel, na Pérsia, no tempo de Mardoqueu (Mordehai) e da Rainha Ester. O grão-vizir, Amman, decretou a morte de todos os judeus do vasto império persa, e graças à intervenção da rainha judia, o rei permitiu que Mardoqueu, tio de Ester, organizasse a defesa dos judeus, que assim escaparam da destruição e da morte.

Várias comunidades judaicas têm o costume de comemorar, num segundo Purim, acontecimentos locais, em que foram poupados milagrosamente ao extermínio.

Em 5338, no calendário judaico, o segundo dia do mês de Elul correspondeu a 4 de Agosto de 1578, data tristemente célebre na história de Portugal – pela derrota das tropas portuguesas em Alcácer Quibir, e o desaparecimento misterioso do jovem rei D. Sebastião.

A tradição local conta que, quando o exército português chegou às imediações de Alcácer Quibir (a Grande Fortaleza), dois “anussim” (judeus convertidos violentamente ao Cristianismo), que faziam parte do exército português, se dirigiram em segredo aos judeus da cidade, e lhes revelaram que o rei cristão, antes de embarcar para África, fora a uma igreja de Lisboa, e fizera o solene juramento de que, se vencesse a batalha, obrigaria todos os judeus daquelas terras a converter-se ao Cristianismo, tal como D. Manuel I havia feito a toda a população judaica de Portugal.

Os judeus de Alcácer-Quibir entraram em pânico, mas os rabinos pediram-lhes que, tal como fizera a rainha Ester no seu tempo, fizessem um dia de jejum e de oração, implorando a Deus que os salvasse daquela crueldade.

No decorrer da batalha, morreu o rei mouro Mulay Mohammed, que havia sido destronado por seu tio Abd-al-Malik (Mulay Moluco), e que se aliara ao rei português, para recuperar o trono.

Pouco depois pereceu também o próprio Abd-al-Malik, segundo a lenda, por efeitos de uma intoxicação. No entanto, os mouros de Alcacer-Quibir, com a ajuda do médico judeu do rei, decidiram ocultar o facto da morte e prosseguir na batalha, sob o comando do irmão do soberano.

Logo a seguir, inesperadamente, o rei cristão desapareceu, provavelmente ferido na batalha. Na ausência de um comandante, os portugueses que já murmuravam contra grande número de erros tácticos de D. Sebastião, desorientaram-se e dispersaram-se, caindo aos milhares sob as espadas dos mouros, ou foram aprisionados.

Alcácer-Quibir não caiu e D. Sebastião desapareceu para nunca mais ser encontrado. Há-de voltar um dia, numa manhã de nevoeiro… ou talvez não.

A batalha ficou conhecida na história como a “batalha dos três reis”, que ali pereceram.

Então, determinaram os rabinos de Marrocos que, a partir desse ano, e para todo o sempre, de geração em geração, aquelas comunidades fariam, no segundo dia de Rosh Hodesh Elul, uma festa de Purim, com muita alegria, descanso de todo o trabalho, e oferta de esmolas aos pobres (Mishloah manot laEvionim).

Tudo isto foi escrito numa Meguilá, rolo em pergaminho manuscrito, de que ainda existem alguns exemplares em Israel, e provavelmente em outros países. São lidas nas sinagogas e nas famílias, no dia a que eles chamam “Purim Sebastiano”, ou “Purim de Sebastian YSV” (abreviatura de “Que se apaguem o seu nome e a sua memória”).

É isto que os judeus de Tanger e de Tetuan comemoram todos os anos naquela data.

O episódio histórico da derrota de D. Sebastião em Alcácer Quibir é também referido com bastante relevo por alguns cronistas judeus, como Yossef Hacohen, na sua obra “Emek Habahah” (Vale de Lágrimas), na qual atribui a derrota de D. Sebastião a um castigo divino pela conversão forçada dos judeus portugueses, em 1497; e também Imanuel Aboab, em “Nomologia“, que relaciona o malogro dos portugueses com o desterro por D. João II, das crianças judias para a ilha de S. Tomé, a que Samuel Usque chamou a “Ilha dos Lagartos”, por ser povoada por crocodilos.

 

 Na fotografia, a primeira parte da Meguilá di Sebastian.

 BIBLIOGRAFIA:

O minuto vitorioso de Alcácer Quibir : batalha do Mohácen, 4 de Agosto de 1578 / José de Esaguy. Lisboa : Agência Geral das Colónias, 1944.

A lição de Alcácer Quibir / Mário José Domingues. Lisboa : Civilização, 1975

A  batalha dos três reis : uma narrativa de heroísmo e lenda. [S.l.] : Ledo, 1990

Alcácer-Quibir 1578 / José de Esaguy. Lisboa : Império, 1950

Battle of Alcacer Quibir

 Battle of Alcacer Quibir / Jesse Russel

מגלות לימי פורים מיוחדים בעיר טנג’יר

/

 

Anúncios