Os judeus do Olival

A última sinagoga do Porto, antes da conversão forçada

Na cidade do Porto existiram, pelo menos três judiarias: a Judiaria Velha, na Cividade, no actual Bairro da Sé, no lugar onde depois foi instalado o Hospital dos Coreiros da Sé; e, depois desta, a Judiaria de Monchique.

Com o tempo, a judiaria de Monchique foi-se tornando pequena, e os judeus começaram a expandir-se para fora do recinto da judiaria. Isso deu lugar a conflitos e discussões com a população cristã.

Perante essa situação, em 1386, o rei D. João I deu ordens à Câmara do Porto para que designasse um lugar mais amplo para habitação dos judeus da cidade.

O terreno designado foi uma zona de olival, no sítio chamado das courelas. Foi aforrado pela cidade aos judeus, contra o pagamento de 200 maravedis de 27 soldos cada um.

A judiaria abrangia a então chamada Rua de S. Miguel (de que a fazia parte a actual Rua de S. Bento da Vitória), com a qual forma um cotovelo) e as ruas das Taipas, Belo-Monte, até ao fundo das escadas, que se chamaram até recentemente Escadinhas da Esnoga (Sinagoga) e agora creio que se chamam também da Vitória.

Em 1491, pouco antes da expulsão dos judeus de Castela, o rabino Isaac Aboab, “Gaon de Castela”, negociou com D. João II a entrada dos refugiados judeus em Portugal, para aí aguardarem a almejada revogação do decreto de Fernando e Isabel. Cada judeu, ao entrar em Portugal, deveria pagar uma taxa de 8 cruzados.

A 30 famílias judaicas mais distintas, entre as quais a do próprio Gaon, o rei atribuiu residências na já referida de S. Miguel.

Isaac Aboab faleceu no Porto em 1493, tendo sido portanto poupado a testemunhar a conversão forçada, em 1496, de todos os judeus portugueses, inclusive a sua própria família. Seu filho recebeu o nome de Duarte Dias, e seu neto, que também usava o nome do avô, Isaac Aboab, foi baptisado como Henrique Gomes.

A partir desse ano deixaram de existir judeus públicos em Portugal. No sítio da judiaria foram construídos uma igreja e um convento, a que foi dado o nome de S. Bento da Vitória, simbolizando, ao que dizem, a vitória da igreja sobre a sinagoga. Pensava-se mesmo que a igreja havia sido construída sobre as ruínas da sinagoga.

No entanto, as longas escadas a que chamavam (até recentemente) as escadinhas da esnoga (sinagoga) iam desembocar nas traseiras de uma das casas da Rua de S. Miguel. As casas daquela rua, apesar de terem sido beneficiadas várias vezes, com obras de restauro, mantiveram mais ou menos a sua traça original. Na sua maioria são propriedade da Misericórdia do Porto.

Há cerca de 7 anos, uma dessas casas foi cedida pela Misericórdia para o estabelecimento de um lar diurno para pessoas idosas. No decorrer das obras de restauro, os operários verificaram a existência, numa das salas, no lado oriental, de uma parede dupla. Abatida a parede falsa, encontraram na parede original um armário em nicha, com todo o aspecto de ter sido um Ehal (ou Aron Hakodesh) onde se guardavam os Sefer Torah (rolos de pergaminho contendo o Pentateuco).

O facto de se encontrar na parede oriental, isto é na direcção de Jerusalém, para onde os judeus dirigem as suas orações, e no exacto ponto de chegada das escadinhas da esnoga, leva a crer que era ali e não no sítio da actual igreja, que se situava a sinagoga, onde fazia as orações o rabino Aboab.

Há anos, quando visitei o local, para examinar o Ehal, passei pela rua de S. Bento da Vitória, junto da entrada para o mosteiro do mesmo nome. E fiquei surpreendido ao ver, no seu muro exterior, uma lápide com a seguinte inscrição:

“Em memória de todos os judeus portugueses vítimas do infame decreto de 1496 que lhes deu a opção à conversão forçada ou à morte.

Terra não cubras o sangue deles pelo esquecimento.

Que seja restituída a abençoada memória de todos aqueles e aquelas que durante cinco séculos mantiveram vivo o eco da palavra de Deus vivo, actualizando a visão profética de Moisés no Monte Horeb:

A sarça ardia no fogo e a sarça não se consumia.

As almas ardentes deles não foram destruídas pelas chamas ou pelos seres que o queriam, através das mais terríveis torturas, obrigando-os a renunciar à sua fé sublime na fonte da vida e amor.

O justo vibra na sua fé”

Eu tinha uma informação vaga de o capitão Barros Basto tinha colocado uma lápide semelhante na parede do vestíbulo da sua sinagoga Kadoorie Mekor Haim. E que tinha sido obrigado a oculta-la sob o painel de azulejos, que ainda hoje lá está. Procurei informar-me sobre a origem da lápide no muro de convento. Tudo quanto consegui saber foi que havia sido colocada ali em 1996, por iniciativa de judeus franceses, por ocasião do 500º aniversário do Decreto de Expulsão de D. Manuel I.