Seriam os reis de Portugal descendentes do Rei David?

Antigamente, nos tempos da Bíblia, os reis só subiam ao trono depois de serem consagrados com os “santos óleos”, em nome de Deus. Assim, os povos sabiam que eles os governavam por “direito divino”.

Assim aconteceu com Saúl, o primeiro rei de Israel, que foi ungido pelo profeta e juiz Samuel. Assim aconteceu também com o seu sucessor, o Rei David.

A partir da destruição do 2º Templo de Jerusalém, pelo imperador romano Tito, nunca mais houve um rei em Israel. Na Bíblia está escrito que quando for restaurado o Reino de Israel, o seu rei será um descendente da Casa de David, que será ungido (Machiah em hebraico, Messias em português ou Cristos em grego, tudo isso significa “ungido”).

Um momento antes da destruição de Jerusalém, o rabino Yohanan ben-Zacai conseguiu saír da cidade, com o consentimento dos romanos, e foi estabelecer o Sanhedrin (conselho dos anciãos, uma espécie de parlamento) em Yavné. Obviamente, tornou-se conveniente declarar que Yohanan ben-Zacai era descendente do Rei David. Até talvez fosse mesmo. É difícil prova-lo ou contestá-lo. Portanto assumia o poder espiritual do povo por direito hereditário.

A hegemonia davídica continuou nas academias judaicas da Babilónia, cujos chefes, como descendentes do rei ungido, David, assumiam o título de “nassi”, príncipe.

Quando o judeu Jesus foi proclamado Messias (Cristo) pela fé dos seus seguidores, logo foi declarado que José, seu pai humano, era descendente do rei David.

Segue-se que muitas dinastias europeias se apresentaram como descendentes do mesmo rei de Israel, e portanto os seus reis se sentavam no trono, por direito divino, consagrado na Bíblia.

Quando Pepino de Herstal morreu, em dezembro de 714, seu filho ilegítimo, Carlos Martel (Martelo) assumiu o poder de-facto do reino dos Francos. Mas nunca se proclamou rei.

Assumiu, no entanto, uma estratégia vencedora. Abraham Ibn-Daud, ele próprio descendente o rei David, e conceituado historiador, conta na sua obra principal, “Sefer HaKabalah” (Livro da Cabala) que Carlos escreveu ao califa de Bagdad pedindo que lhe enviasse um dos seus judeus, “que trouxesse em si a semente da realeza da casa de David.”

Ibn-Daud atribuiu essa iniciativa a Carlos Magno, mas os historiadores acreditam que foi confusão do autor, que escreveu o seu trabalho cerca de 1161. E que se trata, na realidade, Carlos Martel, iniciador da dinastia carolíngia.

O califa enviou-lhe um sábio e magnata da Babilónia, chamado “Makir”, filho de Natronai, Exilarca de Pumbedita.

Em 721, Carlos Martel, venceu os muçulmanos na Batalha de Tours (também conhecida por Batalha de Poitiers), que foi o princípio do fim da presença árabe na Europa. Então ele entregou as terras conquistadas aos muçulmanos em Narbona a Makir, o qual, também com o título de nassi, ali criou um principado judaico e uma yeshivah (academia rabínica).

Além disso, Carlos Martel casou o sábio judeu com sua filha Alda (também conhecida como Aldana), cujo irmão, Pepino, o breve, assumiu o trono por morte do pai. O casamento de um judeu com uma gentia, e de uma nobre carolíngia com um judeu, é problemático, e parece implicar a conversão de Makir. Mas o objetivo de plantar a semente da realeza da casa de David na família real carolíngia estava conseguido.

Deste casamento nasceu um filho, que se chamou Guilherme (Wiliam), cujo pai entrou nos anais da história com o nome de Teodorico, o que levou o historiador Arthur Zuckerman (A Jewish Princedom in Feudal France) a concluir que Makir foi batisado com o nome de Teodorico, dando início a uma dinastia de reis franco-judeus em Narbona. Isto representa a união da linhagem dos exilarcas de Pumbedita com os carolíngeos, descendentes de Carlos Martel.

Este filho foi conhecido como Guilherme de Gellone, ou da Aquitânia, e posteriormente, como Conde de Toulouse ou Guilherme d’Orange.

Deste Guilherme descendem os monarcas do Reino de Portugal, com exceção dos da dinastia filipina.

O Conde D. Henrique, foi o quarto filho de Henrique de Borgonha, neto de Roberto I, duque de Borgonha, bisneto de Roberto o devoto, rei de França, terceiro neto de Hugo Capeto, rei de França, quarto neto de Hugo o grande, duque de França, quinto neto de Roberto II, duque e marquês de França, depois rei, sexto neto de Roberto I, o forte, duque e marquês de França.

Segundo os usos da época, os nobres franceses, não sendo primogénitos, tinham poucas probabilidades de aceder aos títulos dos seus pais. A única solução, para a maioria dos filhos mais novos das famílias nobres europeias, era colocarem-se ao serviço de reis estrangeiros, para obterem assim outros títulos honoríficos e respetivas rendas.

O rei espanhol oferecia-lhes essa oportunidade. Henrique de Borgonha e seu primo Raimundo, colocaram-se ao serviço de Afonso VI de Castela.

Portanto, se aceitarmos a genealogia baseada na tradição da família, o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, era descendente do rei David de Israel.

Circunstancialmente, também o judeu Yahia ben Yaish, primeiro arrabi-mor de Portugal, e colaborador de D. Afonso Henriques nas suas conquistas aos muçulmanos, era descendente do Rei David.

Assim como era o Mestre de Aviz, depois D. João I, cujo filho ilegítimo, da sua ligação com a judia Inês, filha do Barbadão da Guarda, foi o primeiro Duque de Bragança, D. Afonso.

O atual Duque de Bragança. S. A. D. Duarte Pio, pretendente ao trono de Portugal, é duplamente descendente de judeus. E quando visitou a Terra Santa, em peregrinação, em 2006, não deixou de mencionar aos seus anfitriões israelitas, a sua ascendência davídica.

Será um ADN talvez já muito diluído, mas, apesar de tudo, com direito à participação da vasta lista de privilegiados, judeus e não judeus, que se alegam descendentes da Casa de David.

Um casamento na esnoga grande de Lisboa, há mais de um século

Encontrei esta notícia no jornal «Correio da Noite», de 4 de Fevereiro de 1903.

Parece-me que se trata de uma fonte importante de informação, que convém conservar.

A salientar:

– uma descrição importante da sinagoga do Beco dos Apóstolos, que tinha o nome de “Ets Ḥaim 2ª” para se distinguir da “Ets Ḥaim 1ª”, da Travessa do Ferregial (antigo Beco das Linheiras), que se manteve activa até 1950. A “Ets Ḥaim 2ª”, que era  conhecida como “Esnoga Grande”, encerrou as suas portas no ano seguinte a esta cerimónia, quando foi inaugurada a “Shaaré Tikva”, na Rua Alexandre Herculano.

– foi a primeira vez que se celebrou na CIL um casamento na sinagoga. Até então eram celebrados em casa.

– curioso é também notar que já naquela altura a letra “ḥet”, que não tem equivalente em português, soava aos ouvidos portugueses como “r”. O jornalista escreveu “Es-Raine” por “Ets-Ḥaim”.

Mantive a ortografia original, para não lhe alterar o sabor…

Quem possa acrescentar comentários ou tenha fotografias antigas de alguma das antigas sinagogas, será bem-vindo.  

 

 

«Correio da Noite» nº 7107 – 4ª feira 4/2/1903

 

CASAMENTO HEBRAICO

Ceremonia n’uma synagoga

Celebrou-se hoje, pela uma hora e meia da tarde, na sinagoga Es-Raine, situada no Beco dos Apóstolos, nº. 6, 2º andar, o casamento de D. Simy Cohen, gentilíssima menina da colónia israelita, filha do sr. Simão Cohen e da sr.ª D. Rosa Azulav Cohen, com o sr. Abraham Alfredo Amzalak, filho do fallecido sr. Isaac Amzalak.

A srª D. Simy é uma das meninas mais for­mosas e prendadas da colónia hebraica e está ligada pelos laços do parentesco com as mais distinctas famílias portuguezas, que seguem a lei de Moysés.

Foram madrinhas :—a mãe da noiva, srª D. Rosa Azulay Cohen , e a srª D. Annette Amzalak e padrinhos os srs. Simão Cohen, pae da noiva, e  Leão Amzalak,  irmão do noivo. –

A cerimonia do casamento pelo rito hebraico é muito differente dos enlaces chrístãos. Por isso julgamos interessante descrevel-a minu­ciosamente, e tanto mais que é este o primeiro casamento, na alta sociedade Israelita, que se celebra na synagoga, tendo-se effectuado essas ceremonias, até agora, em casa dos nubentes.

 

A synagoga

A synagoga Es-Raíme é uma vasta sala abo­badada, iluminada por cinco janellas, duas das quais deitam para a rua das Flores, olhan­do as três restantes para o beco dos Apóstolos.

A mobília da synagoga é tudo quanto há de mais modesto e simples : uns bancos de madeira, compridos, semelhantes aos das escolas e umas cadeiras do estylo das de Viena de Áus­tria, formam a parte principal d’aquelle mobi­liário.

Os .bancos estão collocados,  não em forma de platéa, mas, guarnecendo as paredes lateraes da sala.

Na parede do topo da sala, que deita para o beco dos Apóstolos e onde a citada porta dá entrada,  há uma  tribuna, onde tomaram logar grande numero de senhoras, que assistiram á cerimonia.  À: frente d’essa tribuna  há uma es­pécie de pulpito,  revestido de setim branco, agaloado a ouro, colocado sobre um estrado forrado de seda carmezim.

É sobre este estrado, que toma logar o sa­cerdote, que celebra o enlace.

À frente deste púlpito tomaram logar sete creanças israelitas pobres, que são subsidiadas pela associação de beneficência Somej Nophlim (Amparo dos pobres), que, conjuntamente com o rev. entoam um hvmno,  indicando o começo da cerimonia.

O púlpito a que nos referimos tem o seu no­me próprio: chama-se o Tebá.

Ao fundo da sala, no topo fronteiro ao Tebá está collocado um grande armário, chamado Ekal,  onde se guardam preciosamente os cinco livros de Moisés ou as Táboas Sagradas.

O Ekal,por causa da cerimonia de hoje achava-se ricamente, revestido por uma cober­ta de seda carmesim,  tendo a meio uma inscripçao em hebraico, bordada a ouro.

 A’ frente via-se uma pequena balaustrada, resguardando o Ekal. Ardiam ali muitas velas e tochas, em cujos intervallos haviam sido colocadas magnificas jarras com bellas flores naturaes.

Na parede lateral da esquerda, de quem entra na sinagoga ergue-se o thalamo nupcial, um sumptuoso throno, forrado exteriormente de seda carmesim, e no interior, o espaldar forrado também de carmesim, e o docel de branco.

No thalamo nupcial há tres cadeiras. A do centro é destinada á noiva, e as dos lados, ás madrinhas.

Toda a sala da synagoga, desde a escadaria, estava atapetada de carmezim e ornamentada com vasos de flores e plantas raras, sendo o conjuncto bellissimo.

Apesar  da sala receber exhuberantemente a, luz do dia, estavam accesas as luzes de gaz do lustre e das placas lateraes.

Sobre o tebá ardiam oito velas de cera, que estavam em castiçaes de prata.

Na frente do tebá, onde o sacerdote colloca o livro do ritual, via-se um panno carmezím com bordados de ouro.

 

A cerimónia

A noiva, radiante de mocidade e de formo­sura, chegou numa rica carruagem, á uma ho­ra e um quarto da tarde, acompanhada por sua mãe.

Trajava um rico vestido de seda branca e véu branco, também de seda, ostentando a clássica flor de Iarangeira no peito e na cabeça, como as noivas cathólicas.

Foi recebida, segundo a praxe, ao alto  da  escada, por todas as senhoras e cavalheiros que assistiam á cerimonia; e após os cumpri mentos, foi.condiizida pelo padrinho ao thala mo, onde, logo tomou assento, ladeada pelas madrinhas.   

O noivo, que trajava casaca, tomou logar à esquerda  do thalamo, tendo, a seu lado,  o pae da noiva, um dos padrinhos.

O noivo está coberto, como todos os homens e, antes de começar a cerimonia, coloca sobre  os hombros uma toalha de seda creme, com uma barra azul, chamada Sissit, e na testa  adapta um objecto que  se denomina Tefilim.

Os convidados tomam  logar de pé, rodeando  o thálamo. ficando á frente, as damas.

Depois de estar toda a gente a postos, o sa­cerdote no Tebá e as creanças no sitio que já assignalámos, entoa-se o coro,  findo o qual  o  padre se dirige ao thalamo, onde é celebrada  a cerimonia de Kidus.

Esta cerimonia é a seguinte: um creado levando ao pescoço o Sissit, que é o distinctivo,  traz n’uma salva de prata dois copos e uma  garrafa de crystal com vinho.  O reverendo deita uma pequena porção de vinho em cada um dos copos e offerece-os aos noivos, que apenas os chegam aos lábios. Entretanto, o padre profere a oração. Finda esta, o noivo mette no dedo da noiva o annel de esponsaes.

A seguir. outro creado traz n’uma bacia de prata um copo de crystal e um martelo de prata. O sacerdote com este martello, quebra o copo.

Depois d’isto há uma segunda oração de Kidus, terminada a qual, o sacerdote entôa a leitura do Ketubá (escriptura do casamento), que esta impressa a preto, em hebraico, em pergaminho.

Então, os noivos, os padrinhos, o sacerdote e os convidados dirigem-se a um gabinete, que fica contíguo á saia, onde o sr. Fortunato Bensabat, escripturário do Comité Israelita de Lisboa, lê o termo do casamento, que os noivos assignam, bem como o celebrante, que foi o sr. Isaac J. Wolfensohn,  os paes dos noivos, padrinhos e  tres membros do comité, que foram  os srs. Isaac J. Benzaquen, Salomão de M. Sequerra e J. Azulay.

Estava  finda a cerimonia, e os noivos rece­biam , os cumprimentos e felicitações dos assistentes.

 

A assistência

Foi numerosissima  e  póde-se dizer quasí composta pela primeira sociedade israelita em  Lisboa.

Pudémos tomar nota das seguintes pessoas:

Sras. D. Esther Abecassis Seruya e filhos, D. Estella Bensabat Amzalak, D. Sarah Buzaglo, D. Esther Cohen Sequerra, D. Symi Cohen, D. Rica Cohen Adrehy, D. Anna Abecassis,   D. Lina Benarus, D. Mary Buzaglo e filhas, D. Osorida Sequerra, D. Esther Cagy Anahory, D. Lea Cohen Zagury, D. Felicidade Zafrani, D. Júlia Azulay, e os srs. Marcos Zagury, Abrahão Athias, Isaac J. Benzaquen, Fortunato Abecassis, Salva­dor Azulay, Dr. Mark Athias, Elias Seruya, Benjamin Buzaglo, Mair Buzaglo, Carlos Buzaglo, David Amzalak, Leão Amzalak, Moysés de Salomão Bensabat, Elias Levy, Jacob Adrehy, Salomão Sequerra, Isaac Buzaglo, Leão Bensaude Amzalak, Salomão Cardoso, Jacob Abecassis, Benjamin Cohen, Isaac Azulay, Aarão Bensliman,  Salon Buzaglo, Saul Cagi, Mauricio Bensaude. Baltar,  Frederico Azulay, etc., etc.

Era casa dos noivos foi servido um delicado copo de agua, depois do que, seguiram para Cintra, onde vão passar a lua de mel.

A titulo de curiosidade, damos uma copia do termo do casamento, que é assim concebido:

Aos sete dias do mez de schebat de 5693, correspondente a 4 de fevereiro de 1903, na synagoga Es-Raine, situada no becco dos Apósto­los nº 6, 2.° andar, . segundo a freguezia de S. Paulo, celebrou-se o consorcio de José Amzalak, filho de Isaac  Amzalak. natural de Loanda, de profissão negociante, nacionalidade portugueza, de 28 anos de edade, com a srª D. Simy Cohen, natural de Lisboa, de 18 anos de edade, de nacionalidade inglesa, casamento que foi feito conforme o rito hebraico, etc., etc.

Seguem as assignaturas.

Os judeus do Olival

A última sinagoga do Porto, antes da conversão forçada

Na cidade do Porto existiram, pelo menos três judiarias: a Judiaria Velha, na Cividade, no actual Bairro da Sé, no lugar onde depois foi instalado o Hospital dos Coreiros da Sé; e, depois desta, a Judiaria de Monchique.

Com o tempo, a judiaria de Monchique foi-se tornando pequena, e os judeus começaram a expandir-se para fora do recinto da judiaria. Isso deu lugar a conflitos e discussões com a população cristã.

Perante essa situação, em 1386, o rei D. João I deu ordens à Câmara do Porto para que designasse um lugar mais amplo para habitação dos judeus da cidade.

O terreno designado foi uma zona de olival, no sítio chamado das courelas. Foi aforrado pela cidade aos judeus, contra o pagamento de 200 maravedis de 27 soldos cada um.

A judiaria abrangia a então chamada Rua de S. Miguel (de que a fazia parte a actual Rua de S. Bento da Vitória), com a qual forma um cotovelo) e as ruas das Taipas, Belo-Monte, até ao fundo das escadas, que se chamaram até recentemente Escadinhas da Esnoga (Sinagoga) e agora creio que se chamam também da Vitória.

Em 1491, pouco antes da expulsão dos judeus de Castela, o rabino Isaac Aboab, “Gaon de Castela”, negociou com D. João II a entrada dos refugiados judeus em Portugal, para aí aguardarem a almejada revogação do decreto de Fernando e Isabel. Cada judeu, ao entrar em Portugal, deveria pagar uma taxa de 8 cruzados.

A 30 famílias judaicas mais distintas, entre as quais a do próprio Gaon, o rei atribuiu residências na já referida de S. Miguel.

Isaac Aboab faleceu no Porto em 1493, tendo sido portanto poupado a testemunhar a conversão forçada, em 1496, de todos os judeus portugueses, inclusive a sua própria família. Seu filho recebeu o nome de Duarte Dias, e seu neto, que também usava o nome do avô, Isaac Aboab, foi baptisado como Henrique Gomes.

A partir desse ano deixaram de existir judeus públicos em Portugal. No sítio da judiaria foram construídos uma igreja e um convento, a que foi dado o nome de S. Bento da Vitória, simbolizando, ao que dizem, a vitória da igreja sobre a sinagoga. Pensava-se mesmo que a igreja havia sido construída sobre as ruínas da sinagoga.

No entanto, as longas escadas a que chamavam (até recentemente) as escadinhas da esnoga (sinagoga) iam desembocar nas traseiras de uma das casas da Rua de S. Miguel. As casas daquela rua, apesar de terem sido beneficiadas várias vezes, com obras de restauro, mantiveram mais ou menos a sua traça original. Na sua maioria são propriedade da Misericórdia do Porto.

Há cerca de 7 anos, uma dessas casas foi cedida pela Misericórdia para o estabelecimento de um lar diurno para pessoas idosas. No decorrer das obras de restauro, os operários verificaram a existência, numa das salas, no lado oriental, de uma parede dupla. Abatida a parede falsa, encontraram na parede original um armário em nicha, com todo o aspecto de ter sido um Ehal (ou Aron Hakodesh) onde se guardavam os Sefer Torah (rolos de pergaminho contendo o Pentateuco).

O facto de se encontrar na parede oriental, isto é na direcção de Jerusalém, para onde os judeus dirigem as suas orações, e no exacto ponto de chegada das escadinhas da esnoga, leva a crer que era ali e não no sítio da actual igreja, que se situava a sinagoga, onde fazia as orações o rabino Aboab.

Há anos, quando visitei o local, para examinar o Ehal, passei pela rua de S. Bento da Vitória, junto da entrada para o mosteiro do mesmo nome. E fiquei surpreendido ao ver, no seu muro exterior, uma lápide com a seguinte inscrição:

“Em memória de todos os judeus portugueses vítimas do infame decreto de 1496 que lhes deu a opção à conversão forçada ou à morte.

Terra não cubras o sangue deles pelo esquecimento.

Que seja restituída a abençoada memória de todos aqueles e aquelas que durante cinco séculos mantiveram vivo o eco da palavra de Deus vivo, actualizando a visão profética de Moisés no Monte Horeb:

A sarça ardia no fogo e a sarça não se consumia.

As almas ardentes deles não foram destruídas pelas chamas ou pelos seres que o queriam, através das mais terríveis torturas, obrigando-os a renunciar à sua fé sublime na fonte da vida e amor.

O justo vibra na sua fé”

Eu tinha uma informação vaga de o capitão Barros Basto tinha colocado uma lápide semelhante na parede do vestíbulo da sua sinagoga Kadoorie Mekor Haim. E que tinha sido obrigado a oculta-la sob o painel de azulejos, que ainda hoje lá está. Procurei informar-me sobre a origem da lápide no muro de convento. Tudo quanto consegui saber foi que havia sido colocada ali em 1996, por iniciativa de judeus franceses, por ocasião do 500º aniversário do Decreto de Expulsão de D. Manuel I.

PURIM EM ALCÁCER-QUIBIR

Purim, em 14 do mês de Adar, no calendário judaico, é a única festividade  que comemora um evento ocorrido na Diáspora, fora da Terra de Israel, na Pérsia, no tempo de Mardoqueu (Mordehai) e da Rainha Ester. O grão-vizir, Amman, decretou a morte de todos os judeus do vasto império persa, e graças à intervenção da rainha judia, o rei permitiu que Mardoqueu, tio de Ester, organizasse a defesa dos judeus, que assim escaparam da destruição e da morte.

Várias comunidades judaicas têm o costume de comemorar, num segundo Purim, acontecimentos locais, em que foram poupados milagrosamente ao extermínio.

Em 5338, no calendário judaico, o segundo dia do mês de Elul correspondeu a 4 de Agosto de 1578, data tristemente célebre na história de Portugal – pela derrota das tropas portuguesas em Alcácer Quibir, e o desaparecimento misterioso do jovem rei D. Sebastião.

A tradição local conta que, quando o exército português chegou às imediações de Alcácer Quibir (a Grande Fortaleza), dois “anussim” (judeus convertidos violentamente ao Cristianismo), que faziam parte do exército português, se dirigiram em segredo aos judeus da cidade, e lhes revelaram que o rei cristão, antes de embarcar para África, fora a uma igreja de Lisboa, e fizera o solene juramento de que, se vencesse a batalha, obrigaria todos os judeus daquelas terras a converter-se ao Cristianismo, tal como D. Manuel I havia feito a toda a população judaica de Portugal.

Os judeus de Alcácer-Quibir entraram em pânico, mas os rabinos pediram-lhes que, tal como fizera a rainha Ester no seu tempo, fizessem um dia de jejum e de oração, implorando a Deus que os salvasse daquela crueldade.

No decorrer da batalha, morreu o rei mouro Mulay Mohammed, que havia sido destronado por seu tio Abd-al-Malik (Mulay Moluco), e que se aliara ao rei português, para recuperar o trono.

Pouco depois pereceu também o próprio Abd-al-Malik, segundo a lenda, por efeitos de uma intoxicação. No entanto, os mouros de Alcacer-Quibir, com a ajuda do médico judeu do rei, decidiram ocultar o facto da morte e prosseguir na batalha, sob o comando do irmão do soberano.

Logo a seguir, inesperadamente, o rei cristão desapareceu, provavelmente ferido na batalha. Na ausência de um comandante, os portugueses que já murmuravam contra grande número de erros tácticos de D. Sebastião, desorientaram-se e dispersaram-se, caindo aos milhares sob as espadas dos mouros, ou foram aprisionados.

Alcácer-Quibir não caiu e D. Sebastião desapareceu para nunca mais ser encontrado. Há-de voltar um dia, numa manhã de nevoeiro… ou talvez não.

A batalha ficou conhecida na história como a “batalha dos três reis”, que ali pereceram.

Então, determinaram os rabinos de Marrocos que, a partir desse ano, e para todo o sempre, de geração em geração, aquelas comunidades fariam, no segundo dia de Rosh Hodesh Elul, uma festa de Purim, com muita alegria, descanso de todo o trabalho, e oferta de esmolas aos pobres (Mishloah manot laEvionim).

Tudo isto foi escrito numa Meguilá, rolo em pergaminho manuscrito, de que ainda existem alguns exemplares em Israel, e provavelmente em outros países. São lidas nas sinagogas e nas famílias, no dia a que eles chamam “Purim Sebastiano”, ou “Purim de Sebastian YSV” (abreviatura de “Que se apaguem o seu nome e a sua memória”).

É isto que os judeus de Tanger e de Tetuan comemoram todos os anos naquela data.

O episódio histórico da derrota de D. Sebastião em Alcácer Quibir é também referido com bastante relevo por alguns cronistas judeus, como Yossef Hacohen, na sua obra “Emek Habahah” (Vale de Lágrimas), na qual atribui a derrota de D. Sebastião a um castigo divino pela conversão forçada dos judeus portugueses, em 1497; e também Imanuel Aboab, em “Nomologia“, que relaciona o malogro dos portugueses com o desterro por D. João II, das crianças judias para a ilha de S. Tomé, a que Samuel Usque chamou a “Ilha dos Lagartos”, por ser povoada por crocodilos.

 

 Na fotografia, a primeira parte da Meguilá di Sebastian.

 BIBLIOGRAFIA:

O minuto vitorioso de Alcácer Quibir : batalha do Mohácen, 4 de Agosto de 1578 / José de Esaguy. Lisboa : Agência Geral das Colónias, 1944.

A lição de Alcácer Quibir / Mário José Domingues. Lisboa : Civilização, 1975

A  batalha dos três reis : uma narrativa de heroísmo e lenda. [S.l.] : Ledo, 1990

Alcácer-Quibir 1578 / José de Esaguy. Lisboa : Império, 1950

Battle of Alcacer Quibir

 Battle of Alcacer Quibir / Jesse Russel

מגלות לימי פורים מיוחדים בעיר טנג’יר

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